João 20.19-23: PERDOANDO PARA A PAZ

PERDOANDO PARA A PAZ , 1

João 20.19-23

Pregado na Igreja Batista Itacuruçá, em 23.9.2001

INTRODUÇÃO
Esta passagem, que narra o primeiro reencontro de Jesus com os seus discípulos após Sua ressurreição, contém quatro frases de Jesus:

1. paz seja convosco (verso 19b e 21b);
2. assim como o Pai me enviou, eu também vos envio (verso 21c);
3. recebei o Espírito Santo; e
4. se de alguns perdoardes os pecados, são-lhes perdoados; se lhos retiverdes, são retidos.

Estas frases são aparentemente desconexas, mas quero tomá-las como estando numa claríssima seqüência, cujo sentido é dado pela última expressão: se de alguns perdoardes os pecados, são-lhes perdoados; se lhos retiverdes, são retidos.
Mais que isso, todas estas expressões são recapitulações de frases anteriormente proferidas por Jesus.

1
Quando Jesus deseja: Paz seja convosco (verso 19b e 21b), Ele confirma Sua promessa anterior: Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou (João 14.27).
A informação bíblica é que os discípulos estavam com a porta trancada porque estavam apavorados, com medo de que algo pior lhes acontecesse, que fossem levados para as prisões e morressem como seu Mestre morrera.
Jesus não lhes condena, por estarem morrendo de medo; antes, oferece-lhes generosamente a paz, não a paz que o mundo oferece, garantida por olhos mágicos ou poderosos barbitúricos, no plano pessoal, ou por tratados negociadas pela força ou por armamentos mortíferos.
O medo que turbava os discípulos pode ser sentido também como a dor provocada pela injustiça da condenação do seu Senhor. Em muitos, essa dor era mais que saudade; era mágoa, era raiva. Em meio à desolação de suas almas, Jesus lhes traz a paz, paz que lhes ajuda a conviver com a saudade, paz que lhes tira o desejo de vingança.
Se eles experimentassem mesmo a paz vinda de Deus, não sentiriam mais medo do que lhes poderia acontecer, porque saberiam que nada lhes poderia separar dAquele que os amava. Se eles se deixassem envolver pela paz de Deus, deixariam de afundar suas vidas na magoa e no rancor, talvez pensando em Judas e em todos aqueles que poderiam ter salvo Jesus da morte, quem sabe alguns que foram até curados pelo Senhor, mas não o fizeram. Se eles abrissem seus corações para receber a paz que Jesus portava, adquiriam uma disposição espiritual nova em relação aos seus ofensores e eventuais perseguidores: eles aprenderiam a perdoar.
Certamente, entre seus medos, estava o de perdoar. Seu Mestre lhes dissera para amar os inimigos (Diferentemente do que tendes aprendido, eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem -- Mateus 5:44); na cruz, seu Salvador rogara ao Pai que perdoasse aos seus assassinos (Contudo, Jesus dizia: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. Então, repartindo as vestes dele, lançaram sortes -- Lucas 23:34).
Como conseguiriam agir deste modo? Por si não conseguiriam, a menos que a paz de Deus estivesse com eles. Por isto, Jesus desejou que esta paz estivesse com eles e lhas ofereceu.
Como os primeiros discípulos, nós também temos medo de perdoar. Então, trancamo-nos dentro de nós mesmos. Achamos que estamos seguros, guardando nossas dores, protegendo nossas marcas, engolindo nossas lágrimas secretas.
De igual modo, muitos temos medo de pedir perdão. As dúvidas encharcam nossas mentes. Será que o outro vai nos perdoar? Qual será o momento de acabar com este suplício?
No entanto, nossas perguntas devem ser outras. Até quando vamos esperar que nos peçam perdão? Vamos levar nossas dificuldades para o túmulo, quando já não poderemos fazer nada? Vamos permitir que nossas mágoas, uns com os outros, nos acompanhem ao túmulo e permaneçam matando aos poucos aqueles nos magoaram ou nós os magoamos?
Assim ponderavam os discípulos. Felizmente, mesmo com os seus corações trancados, Jesus se apresentou diante deles com a Sua paz. Ainda hoje, ele nos oferece esta paz, que é um dom de Deus.
Deixemos que este dom nos alcance. Desejemos esta dádiva divina. É a paz de Deus que nos capacita a amar aqueles que nos perseguem. É a paz de Deus que nos capacita a dar o primeiro passo em direção a quem nos ofendeu ou a quem nós ofendemos. A partir daí, a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus (Filipenses 4.7).

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Quando Jesus dá aos discípulos o sentido de suas vidas, dizendo-lhe: Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio (verso 21c), Ele retoma a mesma comissão anterior: Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo (João 17.18).
A que nos envia Jesus? O Senhor nos envia a fazer o que Ele fez, a anunciar o evangelho da paz (Atos 10.36). Como nos ensina a Bíblia, Jesus Cristo é a nossa paz, o qual de ambos [isto é, de judeus e de gentios, de cristãos e não cristãos] fez um [um só povo]; e, tendo derribado a parede da separação que estava no meio, a inimizade, aboliu, na sua carne [com sua própria vida], a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para que dos dois criasse, em si mesmo, um novo homem, fazendo a paz, e reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por intermédio da cruz, destruindo por ela a inimizade. E, vindo, evangelizou paz a vós outros que estáveis longe e paz também aos que estavam perto; porque, por ele, ambos temos acesso ao Pai em um Espírito (Efésios 2.14-17).
Outro ofício não temos senão o de embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio o mundo a se reconciliar com o Pai (2 Coríntios 5:20a). Afinal, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação. Isto quer dizer o seguinte: Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação (2Coríntios 5.18-19).
Na há dúvida: nós somos enviados como embaixadores da paz.
É por isto que Jesus, que é a paz, nos dá a paz. Foi por isto que ele saudou os aterrorizados discípulos com a paz. A partir da fruição da paz de Deus, eles poderiam (nós poderemos) ser promotores, evangelizadores, anunciadores, embaixadores da paz.
Temos sido embaixadores da paz? Onde há discórdia, temos levado a paz ou mais discórdia? Onde há rancor, que dizemos? Acrescentamos mais razões para ampliar as emoções de desgosto? Esta é a nossa tendência. Gostamos de dizer: "é, você está com a razão; no seu lugar, eu ainda faria pior", quando deveríamos dizer: "não se ponha o sol sobre a sua ira", isto é, não deixe que a raiva se transforme em pecado. As pessoas não precisam de conselheiros do ódio, mas de embaixadores da paz.
Nossa missão é promover a paz, contribuindo para reconciliar ofensores e ofendidos, ajudando ofensores e ofendidos a se darem as mãos, a se perdoarem uns aos outros. Sem perdão, não há reconciliação. Sem reconciliação, não há paz.

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A saída do campo da promessa (divina) para o território do compromisso (humano) é cheia de empecilhos.
O natural em nós é querer a justiça, não a paz. No fundo, queremos fazer o papel do Estado, tornando-nos um poder legislativo, que faz as leis; um poder judiciário, que julga, indicando as penas das leis, e um poder executivo, que aplica as leis. Como somos cristãos, alguns nos julgamos no papel de Deus... Queremos sempre estar com o Senhor, que é um Deus zeloso e vingador; o Senhor é vingador e cheio de ira; o Senhor toma vingança contra os seus adversários e reserva indignação para os seus inimigos (Naum 1.2)...
Os primeiros discípulos eram assim. Nós somos assim. Quando Jesus estava viajando para Jerusalém, precisou da hospitalidade dos moradores de uma aldeia. Eles recusaram. Seus discípulos, cheios de piedade..., perguntaram:
-- Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para os consumir?
Jesus, porém, voltando-se os repreendeu e disse:
-- Vós não sabeis de que espírito sois. (Lucas 9.51-55)
Esta última expressão quer dizer: vós estais negando o Espírito de quem sois, que é o Espírito que inspira o perdão, nunca o ódio, nunca a vingança.
Foi por isto que Jesus soprou sobre os discípulos (e também sobre nós) o Espírito Santo.
Quando Jesus sopra sobre seus discípulos e lhes diz: Recebei o Espírito Santo (22b), ele está confirmando palavras anteriores: Mas eu vos digo a verdade: convém-vos que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei (João 16.7).
O papel do Espírito Santo é o de Consolar os cristãos. Entre os muitos significados da expressão, um é o de estar ao lado do outro. O Espírito Santo é aquele que está ao lado dos cristãos, para sustentá-los, mantendo-os de pé e conduzindo-os.
Se o Espírito não nos conduzir, agiremos por nossa natureza. Quando alguém cometer uma injustiça para conosco, guardaremos e esperaremos que Deus nos vingue. No entanto, o Espírito nos pede para perdoar. O nosso espírito quer justiça, mas o Espírito de Deus quer paz.
Se o Espírito não nos conduzir, superestimaremos o erro do outro e subestimaremos o nosso o próprio desacerto. Não daremos atenção ao conselho do Espírito que nos lembra que também falhamos. Afinal é Ele Quem nos convence do nosso pecado, da justiça que também merecemos e do juízo que nos deve ser aplicado (João 16.8).
Se o Espírito não nos conduzir, deixaremos que nossas discussões em torno de quem tem e quem não tem razão, se a outra parte pediu ou não pediu desculpas, se o outro merece ou não ser desculpado, se a responsabilidade pelo erro foi ou não foi assumida, nos afastem cada vez mais da paz. Sem o Espírito Santo, agiremos como aqueles prontos para a guerra, não aqueles que anseiam pela paz.
Se é verdade que existem problemas práticos, que exigem muita reflexão de nossa parte, também é verdade que não podemos nos esconder atrás destas reflexões para evitarmos perdoar. Antes, seja a mais intensa possível a nossa disposição para perdoar. Deixemos que o Espírito Santo exerça seu ministério.

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Aos atemorizados discípulos, Jesus trouxe a paz. Paz seja convosco. Ele é a paz. Ele nos traz a paz, de modo que não precisamos ter medo. Não precisamos ter medo de perdoar.
Aos desorientados discípulos, Jesus renovou a missão que lhes fora dada: a de ir por todo o mundo evangelizando paz. Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio. O vazio terminara; a plenitude voltara. Eles agora tinham o que fazer. Eles agora tinham um para que viver.
Aos enfraquecidos discípulos, Jesus soprou o Espírito Santo. Por si mesmos, na seriam capazes de perdoar os que mataram Jesus Cristo,  não seriam capazes de promover a paz, não seriam capazes de ir por todo o mundo, não seriam capazes de ficar em pé. Agora, cheios do Espírito Santo, não cheios de si mesmos, estavam capacitados para o exercício de sua missão de embaixadores do perdão.
Pode Jesus agora proferir sua quarta frase: Se de alguns perdoardes os pecados, são-lhes perdoados; se lhos retiverdes, são retidos (verso 23). Quando Jesus solenemente lhes apresenta o desafio do perdão, Ele está repetindo a mesma garantia oferecida previamente, de uma forma mais solene: O que ligardes na terra terá sido ligado nos céus, e tudo o que desligardes na terra terá sido desligado nos céus (Mateus 18.18; cf. Mateus 16.19: o que ligardes na terra terá sido ligado nos céus; e o que desligardes na terra terá sido desligado nos céus).
Muitos têm tomado esta frase como o poder da Igreja, mas ela descreve, antes, o dever da Igreja. Nós não temos o poder de perdoar, mas, sim, o dever de perdoar. Este dever alcança as dimensões vertical e horizontal. Nossa tarefa é dupla.
Na dimensão vertical, nossa tarefa é perdoar, que é anunciar o conteúdo do Evangelho para que as pessoas se reconciliem com Deus, porque, sem esta reconciliação, não há paz. Como invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? (Romanos 10.14). Quando pregamos, nós nos tornamos embaixadores de Deus e cumprimos a missão que nos confiou. Se temos esta disposição, o Espírito Santo nos capacita. Nós mesmos estamos em comunhão com o Pai quando fazemos a Sua vontade e anunciamos a Sua paz.
Na dimensão horizontal, nossa tarefa é perdoar aqueles que nos magoaram, com palavras ou gestos, com intenções ou ações. E Jesus descreve o que acontece com nossa recusa em cumprir a vontade de Deus: se nós perdoarmos as ofensas dos nossos ofensores, eles serão perdoados. A mesma singeleza se aplica à nossa disposição em viver pelo Espírito: se nós perdoarmos, haverá perdão.
As ações do plano horizontal devem ser respondidas no plano horizontal. Deus não pode perdoar as ofensas que foram cometidas contra nós, assim como nós não poderemos perdoar as ofensas que foram cometidas contra eles. O que Ele faz é nos capacitar a perdoar, porque esta é uma ação que não está em nós. Se o Espírito Santo não nos mover, reteremos o perdão, em lugar de liberá-lo.
Às vezes, conseguimos até orar para que Deus perdoe aqueles que nos ofenderam, mas nós mesmos não conseguimos. Há pessoas que Deus perdoou, mas que nós ainda retemos, mantendo-as presas à nossa vida fora do Espírito Santo. Busquemos ter semelhantes a Deus, que perdoa a iniqüidade e se esqueces da transgressão do seu povo. O Senhor não retém a sua ira para sempre, porque tem prazer na misericórdia. (Miquéias 7:18) Até quando nos chafurdaremos no ódio, quando podemos e devemos navegar na misericórdia. Como o Senhor, sejamos ricos em perdoar (Isaías 55.7). Com Ele está o perdão (Salmos 130.4). Conosco, também.
A experiência do Espírito Santo é algo crescente. Esta experiência inclui o perdão.